A menina que respondia pelo nome com que nasceste
Há trinta anos que assinas com o teu nome de casada. Está na caixa do correio, nos papéis do banco, nos postais de Natal. Respondes por ele sem pensar. E, mesmo assim, de tudo o que podias ter perguntado, perguntaste pelo outro, o nome com que nasceste.
Deram-te esse nome antes de alguém te conhecer. Antes da tua primeira palavra, antes de se saber se ias ser barulhenta ou observadora, alguém o escolheu para ti, com esperança. É a única parte de ti que chegou antes da tua história. Por isso, não descreve quem te tornaste. Guarda a menina que lá estava primeiro.
Pensa nela. A menina que respondia por esse nome quando a professora fazia a chamada, a quem chamavam do quintal para vir jantar. O Sol estava em Virgem no dia em que nasceste, por isso ela já devia ser a que reparava no que estava fora do sítio e o punha no lugar, sem dizer nada. A cuidadosa. A que confirmava tudo duas vezes.
Com a Lua em Capricórnio, aprendeu cedo a guardar para si o que sentia e a seguir em frente. Os sentimentos resolviam-se, não se mostravam. A tua cabeça ainda diz, com a voz dela: «Estou bem. Alguém tem de segurar as pontas.»
Um apelido novo mudou o que vem escrito nas cartas. Não a mudou a ela. Ela é a parte de ti que ainda endireita a toalha em que mais ninguém repara, que espera que estejam todos servidos para se sentar. E se a tua pergunta não for bem sobre um nome? E se for sobre saber se ela ainda está aí dentro, depois de trinta anos a ser aquela com quem toda a gente conta?
Se quiseres, fecha os olhos, deixa as mãos pousadas com as palmas para baixo e deixa o nome com que nasceste soar uma vez dentro de ti. Depois sente o peito e a garganta por dentro, com atenção. Talvez haja ternura. Talvez um aperto, como uma coisa que seguras há muito tempo. Só repara. Se quiseres parar, paras.
A menina que respondia por esse nome não foi a lado nenhum. É ela quem está a perguntar.
