Onde é que o «eu» se perde primeiro
«Porque é que me perco em todas as relações?» Perguntas como se a perda te tivesse acontecido, como se um dia tivesses levantado os olhos e a pessoa que eras já se tivesse ido embora. Mas houve um primeiro minuto, depois um segundo, e tu estiveste lá nos dois.
Começa por coisas pequenas. Alguém de quem gostas fica calado, e tu já estás a ler esse silêncio. Com a Lua em Caranguejo, apanhas o humor da pessoa que está ao teu lado antes de dares pelo teu, e esse é o primeiro sítio onde desapareces. O humor dela passa a ser o clima à volta do qual organizas tudo. Suavizas o que ias dizer. Dizes: «Tanto faz», e naquele momento é quase verdade, porque a tua vontade já se calou, abafada pela dela.
Quando dás por isso, a lista daquilo de que gostas, do que escolherias e do que recusarias já foi talhada à medida de outra pessoa. Fizeste-o depressa e em silêncio, tão em silêncio que nem sabes dizer em que dia foi. Ou amas por inteiro ou não amas de todo, e os sentimentos a meias assustam-te. Por isso entras de cabeça, e entrar de cabeça não deixa espaço para ti.
O mais estranho é que, quanto mais alguém se aproxima, menos sobra de ti para estar perto.
Onde é que isto acontece no teu corpo? Não no pensamento «perdi-me de mim mesma». Esse vem muito mais tarde. Acontece logo a seguir a engolires aquilo que ias dizer. O peito fecha-se um bocadinho e continuas a falar como se nada fosse.
E se o teu medo não for perder essa pessoa, mas sim o sentimento que chega quando continuas a ser tu e ela fica desiludida? Esse sentimento é muito antigo e muito rápido, e a tua cabeça tem uma resposta pronta antes de ele acabar: «Não estragues o ambiente. Depois dizes.» O depois nunca chega, porque nessa altura já há outra coisa para não estragar.
Pensar mais no porquê dá à cabeça um osso para roer, enquanto o peito fica exatamente como está. Podes perceber todas as razões e, amanhã, dizer na mesma «Como quiseres».
