Porque é que «em frente» parece o caminho errado
«Desde que a minha mãe morreu, parece que não consigo seguir em frente. Porque é que não consigo?» Perguntaste como quem pergunta porque é que um carro não pega, como se uma peça dentro de ti tivesse deixado de funcionar. Mas há duas palavrinhas na tua pergunta que talvez importem mais do que todas as outras. Em frente.
«Em frente» quer dizer para longe. Cada passo põe um pouco mais de tempo entre ti e a última vez que ouviste a voz dela, a última vez que ela disse o teu nome daquela maneira que só ela sabia. Talvez uma parte de ti ainda não queira essa distância. Aqui, onde estás, ainda a sentes perto.
Nasceste com a Lua em Virgem. Quando alguma coisa dói, arranjas logo alguma coisa de que tratar. Depois de ela morrer, havia tanto para resolver, os telefonemas, os papéis, as decisões sobre o que guardar, e provavelmente trataste de tudo com cuidado, uma coisa de cada vez. Fazer tudo bem era uma forma de a amar. Agora a maior parte das tarefas está feita, e o que resta não há maneira de arrumar.
O Sol estava em Sagitário no dia em que nasceste, por isso sempre foste de olhar para a frente, de ver o caminho seguinte e de te fazeres à estrada. Talvez seja por isso que isto te parece tão estranho. E depois vem o pensamento: «A esta altura, já devia estar mais à frente. O que é que se passa comigo?» É encostar uma régua a uma coisa que nunca foi feita para ser medida.
O luto não é uma tarefa em atraso. É o quanto ela era importante para ti, ainda aqui, ainda tua. Aquilo a que chamas não seguir em frente pode ser simplesmente a parte de ti que lhe está a fazer companhia.
Se quiseres, num serão tranquilo, fecha os olhos e deixa as mãos pousadas com as palmas para baixo. Deixa o corpo aberto e sente o peito por dentro, só com atenção. Pode haver ali uma dor, ou um peso, ou qualquer coisa muito sensível. Não precisas de mudar nada de sítio. Se quiseres parar, paras.
Hoje nada tem de ir a lado nenhum. Ter saudades dela não é uma coisa que estejas a fazer mal.
