Quando «forte» é a única palavra que têm para ti
«Forte» é a palavra que os outros usam quando falam de ti. Dizem-na depois do funeral, no fim de um telefonema difícil, na cozinha, quando a má notícia ainda está fresca: «Tu aguentas. Aguentas sempre.» Para eles, é um elogio. Com o tempo, passou a ser o teu trabalho.
Perguntaste: «Porque é que tem de ser sempre eu?» Há cansaço nesta pergunta, e também qualquer coisa por baixo do cansaço. Um bocadinho de raiva, talvez. Um bocadinho de mágoa por ninguém parecer reparar que a forte também se cansa.
O Sol estava em Balança no dia em que nasceste. Manténs as coisas em equilíbrio. Quando a família pende para um lado, és tu quem se inclina para o outro, para ela não cair. Suavizas, apaziguas, encontras as palavras que mantêm toda a gente à mesma mesa. Ninguém te pediu isso. Viste que alguém tinha de o fazer, e tu já lá estavas.
Com a Lua em Peixes, absorves a dor dos outros como se uma parte dela fosse tua. É por isso que te chegas à frente tão depressa. Ver alguém sofrer custa-te mais do que seres tu a carregar esse peso. Por isso, carregas tu, e as tuas lágrimas ficam à espera do carro, ou do duche, ou da hora em que já estão todos a dormir.
A tua cabeça tem sempre uma frase pronta: «Se eu for abaixo, quem é que segura isto tudo?» Será que a força é também o único sítio onde te sentiste segura? Ser forte quer dizer que ninguém te vê tremer. Passar o peso a outra pessoa seria deixares-te ver mesmo no meio de tudo isto.
Quando o cansaço chegar, repara onde é que ele se instala. Talvez um peso no peito, talvez um nó na garganta, feito de tudo o que ficou por dizer. Se quiseres, fecha os olhos, deixa as mãos pousadas com as palmas para baixo e deixa o corpo aberto. Sente esse sítio por dentro, com atenção. Por um momento, não há nada para segurar. Se quiseres parar, paras.
Estar cansada não apaga a força que tiveste. É a parte de ti que segurou tudo por toda a gente, a pedir baixinho a sua vez.
