A menina bem-comportada que nunca teve direito a uma noite de folga
Havia uma menina que percebeu, muito cedo, o que era um dia bom. Os sapatos junto à porta. A voz baixinha. O prato levantado da mesa sem ninguém pedir. Ninguém precisou de lhe explicar nada. Descobriu a regra sozinha, como fazem as crianças: se eu me portar bem, fica tudo bem.
Perguntaste porque é que ainda te sentes aquela menina. Talvez porque a regra nunca ficou a saber que ela cresceu. Ainda manda nos teus dias. Aparece quando pedes desculpa por fazer uma pergunta simples ao balcão de uma loja, quando arrumas a cozinha antes de te deixares sentar, quando alguém está chateado e a primeira coisa que verificas é se foi por alguma coisa que fizeste.
Nasceste com o Sol em Caranguejo. A casa, e o bem-estar de quem lá vive, estão muito perto do teu centro. Claro que a menina andava atenta a toda a gente lá de casa. Preocupar-se com o humor de quem amava não foi uma coisa que lhe impuseram. Já fazia parte de quem ela era.
A Lua estava em Touro, e uma Lua em Touro sente-se segura quando as coisas estão calmas e estáveis e não mudam. Por isso, portar-se bem nunca foi só para agradar a alguém. Era a sua maneira de manter o chão firme debaixo dos pés. A tua cabeça ainda repete as palavras dela: «Não faças fitas. Não dês trabalho.»
Repara no que acontece quando te portas um bocadinho menos bem. Deixas a loiça por lavar. Dizes que não. Ficas com a fatia maior. Qualquer coisa se aperta no fundo do estômago, um alarme antigo que não sabe em que ano estamos. Se quiseres, fecha os olhos, deixa as mãos pousadas com as palmas para baixo e deixa o corpo aberto. Sente esse sítio por dentro, com atenção, como te sentarias em silêncio ao lado de uma criança preocupada. Se quiseres parar, paras.
Aqui ninguém fez nada de mal, nem ela nem tu. Ela encontrou uma maneira de manter as coisas estáveis, e resultou bem o bastante para nunca ter tido motivo para a largar.
A mulher que és hoje leva-a para todo o lado. Talvez ela não esteja à espera de ser melhor. Talvez esteja à espera de que alguém repare há quanto tempo anda a tentar.
